quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Casa da Virgem Maria...

                                                               
                                                                                             
                                                                               

Todos os anos cerca de dois milhões de fiéis sobem o Bülbül Dagi (Monte Rouxinol, em turco) para conhecer aquela que teria sido a última residência de Maria, mãe de Jesus, levada lá por São João alguns anos depois da crucificação.

 A casa simples de pedra é cercada de verde e tranquilidade, e não são poucos que afirmam ser arrebatados por forte emoção ao entrar na singela moradia.. 

Apesar de não haver confirmações irrefutáveis, todos os indícios levam a crer que ela teria passado seus últimos anos lá. Afinal, no começo do Cristianismo as igrejas só eram construídas onde havia mártires ou santos, e sempre no nome deles. E em Éfeso ficava a única igreja atribuída a Maria, que ainda hoje pode ser visitada. Os arqueólogos também já comprovaram a data da construção.
Reafirmando as suspeitas, vários papas visitaram a casa e deixaram lembranças que estão expostas nas paredes, como Paulo VI, que esteve lá em 1967; João Paulo II, em 1979 e Bento 16 em 2006.
Na entrada da habitação de dois pequenos cômodos há um altar e velas para que os visitantes, visivelmente emocionados, façam suas orações e as depositem acesas ao lado de fora.
Ao sair, um pouco abaixo da casa ficam as fontes de água, e muitos acreditam que ela tenha propriedades curativas e relatam milagres. Os turistas, claro, aproveitam para encher várias garrafinhas como lembrança. Ao lado, um muro onde amarram pedidos e agradecimentos à Virgem.
A casa está localizada há 9 quilômetros de Éfeso, as ruínas mais importantes da Turquia, um grandioso centro da antiguidade cuja bela história tem início muitos séculos antes de Cristo. Ali chegaram a viver mais de 400 mil pessoas, sendo a cidade mais importante depois de Roma durante o Império Romano.
O fato é que por ali passaram diversas civilizações, cada uma deixando uma parte de sua história.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Jovem Guarda...


Tantas eternidades...

Passou o aniversário de uma linda senhora e eu não a cumprimentei. Porto Alegre completou
242 outonos e não a abracei, talvez preocupado com os tropeços do país.
Cheguei a esta cidade com seis anos, a bordo de um avião da Varig e de 38 graus de febre. Tenho a vaga ideia de haver avistado nesse primeiro encontro a grande enseada que se abria ao sul, surrealmente de um azul turquesa, mais a escadaria da Rua João Manoel, mas pode ser que fosse a gripe.
Passei a primeira semana recolhido ao leito, como se dizia então. Minhas irmãs me noticiavam que, na sacada dos fundos do apartamento, ancoravam imensos navios, e eu acreditei nelas piamente. Foi o que fiz logo que me deram alta: correr à tal sacada dos fundos. Com a permissão de Machado, minha alma caiu ao chão. Havia, sim, navios, bordô e prata, mas passavam a centenas de metros dali, para além da chaminé do Gasômetro.
Sobravam, no entanto, outras razões de encantamento. Quando pude afinal sair à rua, meu pai me apresentou ao bonde Duque. Era algo que suplantava minha imaginação, pois nos surgiu brilhando em meio à neblina. Descemos na Rua da Praia, esquina com a Marechal Floriano, bem onde ficava a Casa Masson. Suas vitrines cintilavam como joias na manhã fria.
Dali caminhamos até a Galeria Chaves, onde me surpreendeu o vitral do forro, cuja imagem nunca esqueci. Meu pai comprou um presente para minha mãe, na Joalheria Ibañez, uma Casa Masson em porte menor, mas igualmente sofisticada. Voltamos a caminhar e, na esquina com a Avenida Borges, fiquei admirando a troca de luzes da sinaleira, manejadas por um guarda no alto de uma guarita.
Eu olhava espantado para as alturas do Sulacap e do Vera Cruz: nunca imaginara que houvesse edifícios tão altos.
– Mora gente lá em cima? – perguntei a meu pai.
– Mora, sim – disse ele. – Mas alguns andares são de escritórios. Já te mostro.
E levou-me pela mão até a entrada de um deles, onde me apresentou a outro fenômeno: o elevador.
A quota de surpresas do dia ainda não estava completa. Seguimos em direção à Praça da Alfândega, onde ainda tremeluziam um ou dois anúncios de néon. Paramos diante de um prédio também alto, mas antigo, que ficava além de uns quantos cinemas.
– Olha ali – falou meu pai. – E eu tive o contato inaugural com a porta giratória do Grande Hotel.
Na esquina entramos na Livraria W. M. Jackson, onde ele ficou namorando as lombadas das obras completas do já dito Machado. Um dia elas seriam nossas. São essas mesmas que me acompanham, tantas eternidades depois, nesta biblioteca em que teço esta crônica de saudade.  
Liberato Vieira da Cunha

Esse menino era meu filho...


Não posso nem chamá-lo de caro ou prezado, mas apenas usar seu nome: Leandro. Educação e respeito vão soar como cinismo.
Tampouco posso chamá-lo pelo sobrenome para indicar formalidade. Perdeu o direito do sobrenome. Seu filho pequeno está enterrado em seu sobrenome para sempre. Ele carregava seu sobrenome, você não soube carregar coisa alguma dele.
Tenho enfrentado vários pesadelos desde que ouvi a notícia de que seu menino de 11 anos fora morto pela madrasta.
Que seu menino foi posto numa cova às margens de um rio em Frederico Westphalen (RS) e poderia estar ainda vivo. Coberto pela terra quando deveria ser coberto pelo edredon para não passar frio de noite.
Seu filho foi enganado. Toda a vida enganado. Toda a vida humilhado. Na hora de seu fim, aceitou o passeio para longe de Três Passos porque jurava que receberia uma televisão.
Quando seu menino acordar dentro da morte, ele vai chamá-lo. Assim como toda criança chama seu pai quando tem medo do escuro. Vai chamá-lo e onde estará?
Ele acreditava que você era o herói dele. Estava exagerando para pedir que o salvasse, não entendeu o apelo?
Você nem pai foi. Nem homem foi. Você foi o que restou.
Como médico, não acha Bernardo uma criança um pouco grande para fazer um aborto?
O que dirá para irmãzinha dele? Que Bernardo está no céu? Que é uma estrela?
Perdeu também o direito de mentir. É você e sua memória sozinhos no silêncio. Só resta a memória para quem matou a consciência.
Nunca encontrará perdão. Deixou Bernardo desamparado. Deixou Bernardo com as mesmas roupas curtas, o mesmo uniforme escolar surrado, desde que a mãe faleceu. Deixou seu filho mendigar atenção pela cidade. Pelo fórum.
Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada. O sexo é mais importante do que a paternidade? A bajulação é mais importante do que a ternura? Queria estar disponível para festas? Cortar gastos?
Fingiu que Bernardo não existia para não atrapalhar a ambição da sua mulher? Fingiu que Bernardo não havia nascido para atender à exclusividade de sua mulher?
Filho não é escolha, é responsabilidade. Já casamento é escolha...
Se a mulher não gostava de seu filho, não deveria ter recusado o relacionamento?
Como seria simples. Bastava dizer "Ou meu filho ou nada!". É o que se fala no início do namoro.
Para você, nada.
Não é que você não tem mais nada, você não é mais nada. Abdicou de seu filho para ficar com alguém. Você não se contentou em abandonar sua família para criar uma segunda família, você aniquilou sua família para criar uma segunda família.
Obrigava Bernardo a esperar fora de casa até você chegar do trabalho, agora é você quem espera fora de casa.
Obrigava Bernardo a lavar as mãos para brincar com a irmã. Pois tente lavar suas mãos agora para tocar no rosto dele.
Tente todos os dias de sua paternidade. Sangue não sai com a culpa.
Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O homem superior....


Assisti a uma entrevista do autor da música “Lepo  Lepo” afirmando que a intenção da sua obra é “dizer não ao capitalismo”. Não havia reparado na natureza contestatória da canção. Fui pesquisar e, de fato, na letra o protagonista conta não
ter carro nem casa, reclama que seu salário está atrasado e avisa que vai falar a respeito da sua precária situação financeira com a amada. Por fim, deduz: se ela ficar com ele, é porque gosta do seu “lepo lepo”.
É o sonho de todo homem. Que as mulheres não fiquem com ele por causa de dinheiro ou status, mas apenas e tão-somente devido à excelência de seu lepo lepo. O lepo lepo dele é tão bom que elas não conseguem abandoná-lo, mesmo que esteja falido, mesmo que seja um pangaré.
Mas, infelizmente, não é assim que funciona. As mulheres, seguindo a lei da preservação da espécie, procuram o mais forte. O Homem Superior de Nietzsche. Aquele que vai lhes proporcionar a descendência com maiores condições de sobreviver. E quem é o mais forte no Século 21? Que tipo de homem despertará nela os formigamentos do instinto de reprodução? Depende do que a mulher sente. Não do que pensa, não do que crê; do que ela sente. Talvez ela não saiba por que, mas ela SENTE que as qualidades apresentadas pelo candidato em questão, no caso, você, são as melhores para sua prole futura. Então, gol do Brasil. Você será o escolhido.
Portanto, de nada adianta ter um invejável lepo lepo, se você é mesmo um pangaré. Você terá de ser superior, para aquela mulher. “Homens superiores, dominai as virtudes enganosas!”, gritava o Zaratustra de Nietzsche. “Dominai as considerações com os grãos de areia, o bulício das formigas, a ruim complacência, a ‘felicidade dos outros’! A ter de vos renderdes, preferi desesperar!”
E é verdade! A vida é capitalista. O instinto das mulheres, que é o que move a roda do mundo, é capitalista. Não acredite nessa balela feminista de igualdade. Isonomia, sim; igualdade, jamais. Não somos iguais. Não acredite no sonho dourado do Lepo Lepo. Você pode ser lepolepado, você pode ser uma vítima do prazer; ela, não. Seja superior, portanto. Nietzsche e as mulheres anseiam pelo Homem Superior.
David Coimbra