segunda-feira, 7 de abril de 2014

Anos de Chumbo...

                                                                                 


Fiz parte da juventude surpreendida pelo golpe Golpe Militar de 1964. Minha turma trabalhava e estudava muito. A tomada do poder pelos militares veio responder aos anseios dos adultos com quem convivíamos em casa, na escola, no trabalho e na igreja. Fomos, portanto, jovens trabalhadores alienados no primeiro momento.
Nos anos que antecederam a o golpe, tínhamos muito medo do comunismo. Havia nos ensinamentos religiosos os conceitos de corpo e a alma, em casa do bem e do mal e na rua do comunismo e do capitalismo. Após o golpe sofremos outro dualismo: A ARENA e o MDB. Fomos, portanto, massacrados por um maniqueísmo que funcionou como uma couraça que nos impediu de enxergar os acontecimentos como eles eram de verdade.
Aos poucos observamos o comportamento de alguns colegas que faltavam aulas, conversavam pelos cantos e desapareciam por dias. Eles rodavam por faltas, geralmente. Tivemos um amigo em particular que sumiu e, quando soubemos dele, estava fugindo para o exterior. Foi seguido pela namorada, que chorava abraçada aos pais e aos irmãos, mas partiu rumo ao desconhecido. Os dois estão juntos até hoje, têm filhos adultos e muito bem de vida.

Mas o comunismo havia sido esmagado e aparentemente estava tudo bem. Os jornais e revistas retratavam famílias felizes, assistindo corridas de cavalos. As mulheres ostentavam chapéus e lindos trajes nos hipódromos. Os bailes eram coisa grandiosa, com debutantes luxuosas. Os concursos de misses eram o ponto alto do ano, quando sofríamos com a derrota das nossas candidatas e amávamos as nossas Martas Rochas, mesmo com umas polegadas a mais.

Nossas diversões eram interessantes. Os festivais da música popular brasileira eram acontecimentos aguardados com ansiedade. Cantávamos junto com os participantes e não imaginávamos que Geraldo Vandré e sua Para Não Dizer Que Não Falei de Flores fossem um símbolo de resistência contra a ditadura. Demorou para percebermos que havia censura feroz às artes, à imprensa e à comunicação em geral.

As notícias de assassinatos, torturas, desaparecimentos foram abrindo gradativamente nossos olhos e assistimos aos últimos anos do regime. Aí foi urdido o plano da Anistia Ampla Geral e Irrestrita, aceita por conter em seu bojo a volta dos exilados e a soltura dos presos políticos. A volta dos nossos líderes foi uma festa! A morte das lideranças e o silenciamento de outras, naquele momento, começaram a tomar um vulto enorme. Alguns não se deram conta de que essa tal Anistia começou a impunidade no nosso país.

Os assassinatos, desaparecimentos, exílios, torturas configuram crimes de lesa humanidade e nunca foram punidos, por que anistiados. Os assassinos e torturadores nunca foram apontados como tal. Sabíamos o que havia acontecido, mas só conseguíamos contemplar as famílias que choravam a falta dos filhos e dos pais e víamos as marcas nos corpos dos que sobreviveram.

Em um primo do meu marido não vi sinal algum, mas assisti ao silêncio torturante a que ele mesmo se impôs, por não conseguir falar sobre os meses em que ficou trancado em porões imundos, sofrendo toda a sorte de violações.

Quem viveu essa época não pode participar de nenhuma caminhada de apoio à intervenção militar, na tentativa de reeditar o que deixou feridas tão profundas na nossa pátria. Já superamos os dualismos e não queremos mais ser reduzidos a tão pouco.


(Sueli G.Frosi)

O Foco da Gratidão...

                                                                                     
A vida nos apresenta surpresas, boas ou não... mas, poucas vezes agimos para aproveitar todas as oportunidades que nos chegam com os acontecimentos, especialmente com os ditos ruins, que surgem de forma inesperada.
Quase sempre nossa primeira reação é não aceitar aquilo, principalmente se julgamos que é injusto passar por algo que não merecemos.
Lembrando que ninguém colhe o que não plantou, julgar qualquer coisa que nos acontece como injusta, vem do nosso ego, que só enxerga o problema como um fato isolado sem colocá-lo dentro de um contexto mais amplo, como algo que está além da compreensão dos nossos cinco sentidos e que, de uma forma ou de outra, somos responsáveis pela criação daquele problema na nossa realidade.
Então, é muito importante assumir que somos 100% responsáveis por tudo que atraímos, entendendo que, mesmo que não esteja ao alcance da nossa compreensão consciente, faz parte do que viemos para liberar e aprender nessa nossa jornada aqui na Terra.
Se não aceitamos o que já aconteceu, estamos resistindo a todo o Universo que agiu para que aquilo se manifestasse em nossas vidas, daquela forma, e resistir só faz com que as energias naturais de resolução não possam agir ali; criamos um cabo de guerra com o Universo e, com certeza, com essa atitude seremos perdedores.
Depois da não aceitação e resistência costumam vir as lamentações e reclamações... Essa parte é bem ruim porque sempre nos coloca na posição de vítimas indefesas... e, resistir e nos colocarmos como vítimas não resolve nada, pelo contrário, só cria mais e mais da mesma situação.
Entendo que o Universo manifesta aquilo em que colocamos nosso foco. Se estamos reclamando de algo que não queremos em nossa vida, a cada reclamação colocamos nosso foco aí e é mais disso que vamos atrair. Portanto, diante de qualquer situação que consideremos ruim, sempre devemos evitar o foco excessivo no problema e, uma coisa que nos ajuda nesse ponto é colocar nosso foco na gratidão.
Tendo a compreensão de que em tudo existe sempre uma oportunidade de aprendizado, vamos buscar motivos para sermos gratos, mesmo nas situações onde aparentemente não existam esses motivos. Se nos distanciarmos um pouco e olharmos tudo sob a perspectiva de um plano maior, a partir do contexto da evolução da nossa Alma, encontraremos muitos motivos para agradecer por qualquer coisa em nossas vidas.
O ego só vê o problema, que fica cada vez maior, alimentado pelos pensamentos destrutivos e pelas reclamações. A Alma percebe aquilo como uma oportunidade de evolução, como algo que viemos aqui para aprender com... e não como algo que estamos passando para sermos punidos.
Com essa visão sobre o problema, fica mais fácil entregar o controle a uma força maior e esperar que as coisas se resolvam de uma forma mais natural, sem tanta interferência dos nosso medos e memórias de experiências passadas, que sempre fazem com que tudo pareça pior do que realmente é.
Colocar nosso foco na gratidão opera verdadeiros milagres e nos afasta um pouco do controle do ego, abrindo as portas para que possamos agir guiados por Inspiração Divina.
Rubia A. Dantés

PARIS , FRANCE - A WALKING TRAVEL TOUR - HD


sábado, 5 de abril de 2014

Fumei a vida por meus quarenta e dois anos...




Comecei precocemente, aos 13 anos. Roubava um ou outro cigarro da carteira de minha mãe e fugia escondido com um amigo, Alberto, pra fumar. Era sempre no alto da árvore que tinha perto de casa. Ignorantes a qualquer lei física, sabíamos que dali não seríamos vistos e que a fumaça quente subiria para que ninguém sentisse seu cheiro além de nós. Ali, naquela árvore, falamos de metafísica. Falamos de Deus, de bocetas, de escola, de tetas, de problemas familiares, de coxas; no topo daquela árvore, entre conversas de torpe filosofia, vimos a primeira Playboy da nossa vida. Associei aquela furtividade, aquela marginalização de uma mera brincadeira a um ato sagrado. No topo daquela árvore descobri as primeiras intimidades e cumplicidades da minha vida.

Alberto e eu continuamos a crescer juntos e, com 14 anos, dávamos nossos pulos para descolar os cigarros. Quando saíamos em grupo, colocávamos eles atrás da orelha e olhávamos de soslaio para as garotas. Pensava que seus risos eram de vergonha e provocação, mas hoje sei que elas riam do quanto estávamos bobos daquele jeito. Aliás, é incrível como essa imagem em específico mostra o que foi o cigarro durante tanto tempo pra mim: um acessório. Eu não fumava pelos mesmos rituais dos 13 anos, de quando tinha que fazer tudo de forma furtiva para não ser pego, quando aquela desculpa de fumar um em cima da árvore se tornava uma abertura para que eu descobrisse a vida junto de outro amigo. Aos 14 anos, o cigarro era algo que eu colocava atrás da orelha e queimava dentro dos pulmões, e era isso porque eu era uma cara legal e caras legais eram assim.

O cigarro voltou a ter sentido para mim quando tinha meus 16 anos. Me estirei por entre os lençóis em que acabara de ter minha primeira transa e aspirei nicotina nos pulmões. E então o quarto se fez sólido, a mulher nua perto de mim transmitiu calor pelo ar e senti a umidade pingando na ponta do meu pau. E meu coração apertava, espremido entre os pulmões cheios de nicotina. Eu estava fumando enquanto descobria o que era amor.

Aos 17, após o término com a garota, o cigarro se tornou um novo ritual. Eu a amava. Respirava fumaça. Eu também a odiava. Espirava fumaça. Eu queria voltar pras suas coxas. Respirava fumaça. Eu tinha mágoa ao imaginar seu toque. Espirava fumaça.

Até os 22, estendi meu costume de fumar após o sexo. Mas era sempre tentando resgatar a sombra daquele primeiro fumo, sempre tentando realinhar a nitidez do quarto, o calor das mulheres, a umidade nos lençóis e o tambor por entre os pulmões. Porém, numa noite alta essas coisas aconteceram e temi em soltar a fumaça dos pulmões, temi deixar aquela estranha linearidade das coisas tremular.

Até os 30 anos, nunca mais espirei. Guardei aquela nicotina nos pulmões e não meti nenhum outro cigarro na boca. Tudo em nome de Elisângela. Com ela tive dois filhos, uma casa, um carro, vários sonhos. E um amor. Mas eu não guardei a fumaça por tempo suficiente. Em dado momento, ela começou a escapar de meus pulmões, a sair pela boca, pelo nariz, a formar umidade debaixo de meus olhos. E então eu soltei tudo e Elisângela se foi.

Desde sua partida, voltei a fumar. Fumei em noites insones. Fumei em outras camas, com mulheres de quem não lembro o nome. Fumei em bares com amigos. Fumei em bares sozinho. Fumei nas ruas da minha cidade verde e aspirei a fumaça de suas árvores queimadas. Fumei de frente a televisões, ao lado de rádios, na frente de livros abandonados e em cima de registros fotográficos.

Elisângela partiu e eu fiquei segurando a vida na ponta dos dedos. Acendi a ponta dela e aspirei. E a vida me preencheu, mas ela sufocava. Então soltei. E repeti isso. Repeti isso muitas vezes.

E assim as pessoas me repetiam que eu deveria parar de fumar. Meu dentista, meu médico, meu patrão, meus amigos, meus filhos e se eu tivesse um cachorro ele ficaria me olhando com olhos esbugalhados enquanto fumo.

Meu inbox do Facebook, hoje, está lotado de envios sobre Eric Lawson, modelo da Marlboro que morreu de câncer pulmonar. “Olha aí”, dizem os comentários que seguem a notícia, “cê deveria se cuidar enquanto é novo.”

O cara morreu com 72 anos. Sabem, eu morreria com 60 de forma tranquila. Sério, me pouparia tantas dores de velhice. E o cara aguentou até os 70!

Dispenso os comentários de que eu deveria parar de fumar. Agradeço os votos de apreço pelo gesto, mas dispenso. Dispenso porque ninguém fumou como eu fumei. Ninguém teve com o cigarro aquilo que eu tive.

Nenhum deles, quando me pede que eu pare de fumar, sabe que naquele cigarro está minha vida. E que eu não posso mais parar de aspirá-la e espirá-la. Que eu só largo isso quando queimar meus dedos e a bituca apagar na sarjeta.


  Fernando Azevedo
Foto: Fumei a vida #Marlboro #EricLawson 

Fumei a vida por meus quarenta e dois anos. 

Comecei precocemente, aos 13 anos. Roubava um ou outro cigarro da carteira de minha mãe e fugia escondido com um amigo, Alberto, pra fumar. Era sempre no alto da árvore que tinha perto de casa. Ignorantes a qualquer lei física, sabíamos que dali não seríamos vistos e que a fumaça quente subiria para que ninguém sentisse seu cheiro além de nós. Ali, naquela árvore, falamos de metafísica. Falamos de Deus, de bocetas, de escola, de tetas, de problemas familiares, de coxas; no topo daquela árvore, entre conversas de torpe filosofia, vimos a primeira Playboy da nossa vida. Associei aquela furtividade, aquela marginalização de uma mera brincadeira a um ato sagrado. No topo daquela árvore descobri as primeiras intimidades e cumplicidades da minha vida.

Alberto e eu continuamos a crescer juntos e, com 14 anos, dávamos nossos pulos para descolar os cigarros. Quando saíamos em grupo, colocávamos eles atrás da orelha e olhávamos de soslaio para as garotas. Pensava que seus risos eram de vergonha e provocação, mas hoje sei que elas riam do quanto estávamos bobos daquele jeito. Aliás, é incrível como essa imagem em específico mostra o que foi o cigarro durante tanto tempo pra mim: um acessório. Eu não fumava pelos mesmos rituais dos 13 anos, de quando tinha que fazer tudo de forma furtiva para não ser pego, quando aquela desculpa de fumar um em cima da árvore se tornava uma abertura para que eu descobrisse a vida junto de outro amigo. Aos 14 anos, o cigarro era algo que eu colocava atrás da orelha e queimava dentro dos pulmões, e era isso porque eu era uma cara legal e caras legais eram assim. 

O cigarro voltou a ter sentido para mim quando tinha meus 16 anos. Me estirei por entre os lençóis em que acabara de ter minha primeira transa e aspirei nicotina nos pulmões. E então o quarto se fez sólido, a mulher nua perto de mim transmitiu calor pelo ar e senti a umidade pingando na ponta do meu pau. E meu coração apertava, espremido entre os pulmões cheios de nicotina. Eu estava fumando enquanto descobria o que era amor.

Aos 17, após o término com a garota, o cigarro se tornou um novo ritual. Eu a amava. Respirava fumaça. Eu também a odiava. Espirava fumaça. Eu queria voltar pras suas coxas. Respirava fumaça. Eu tinha mágoa ao imaginar seu toque. Espirava fumaça.

Até os 22, estendi meu costume de fumar após o sexo. Mas era sempre tentando resgatar a sombra daquele primeiro fumo, sempre tentando realinhar a nitidez do quarto, o calor das mulheres, a umidade nos lençóis e o tambor por entre os pulmões. Porém, numa noite alta essas coisas aconteceram e temi em soltar a fumaça dos pulmões, temi deixar aquela estranha linearidade das coisas tremular. 

Até os 30 anos, nunca mais espirei. Guardei aquela nicotina nos pulmões e não meti nenhum outro cigarro na boca. Tudo em nome de Elisângela. Com ela tive dois filhos, uma casa, um carro, vários sonhos. E um amor. Mas eu não guardei a fumaça por tempo suficiente. Em dado momento, ela começou a escapar de meus pulmões, a sair pela boca, pelo nariz, a formar umidade debaixo de meus olhos. E então eu soltei tudo e Elisângela se foi.

Desde sua partida, voltei a fumar. Fumei em noites insones. Fumei em outras camas, com mulheres de quem não lembro o nome. Fumei em bares com amigos. Fumei em bares sozinho. Fumei nas ruas da minha cidade verde e aspirei a fumaça de suas árvores queimadas. Fumei de frente a televisões, ao lado de rádios, na frente de livros abandonados e em cima de registros fotográficos. 

Elisângela partiu e eu fiquei segurando a vida na ponta dos dedos. Acendi a ponta dela e aspirei. E a vida me preencheu, mas ela sufocava. Então soltei. E repeti isso. Repeti isso muitas vezes. 

E assim as pessoas me repetiam que eu deveria parar de fumar. Meu dentista, meu médico, meu patrão, meus amigos, meus filhos e se eu tivesse um cachorro ele ficaria me olhando com olhos esbugalhados enquanto fumo. 

Meu inbox do Facebook, hoje, está lotado de envios sobre Eric Lawson, modelo da Marlboro que morreu de câncer pulmonar. “Olha aí”, dizem os comentários que seguem a notícia, “cê deveria se cuidar enquanto é novo.”

O cara morreu com 72 anos. Sabem, eu morreria com 60 de forma tranquila. Sério, me pouparia tantas dores de velhice. E o cara aguentou até os 70! 

Dispenso os comentários de que eu deveria parar de fumar. Agradeço os votos de apreço pelo gesto, mas dispenso. Dispenso porque ninguém fumou como eu fumei. Ninguém teve com o cigarro aquilo que eu tive. 

Nenhum deles, quando me pede que eu pare de fumar, sabe que naquele cigarro está minha vida. E que eu não posso mais parar de aspirá-la e espirá-la. Que eu só largo isso quando queimar meus dedos e a bituca apagar na sarjeta.

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Fernando Azevedo tem 18 anos e é feito de mais anseios de futuro do que de passados para se gabar. Escreve crônicas toda segunda-feira direto do interior de São Paulo, onde finge viver.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Fim de Verão...



Chegam as primeiras chuvas anunciando             
o fim de um tempo escaldante de verão.
Distanciam-se os dias de luar e cio,
fica o canto, a vibração, a nostalgia,
fragmentos de risos, sonhos e ilusão.

A praia sem a obrigação de ser verão,
serenamente perde-se na linha do horizonte.

Os dias continuarão mornos e ensolarados.
E ao fim da tarde o sol fará sua despedida
em coloridos raios até morrer atrás do monte.

Um vento errante há de vagar sobre a praia,
anunciando teatralmente o fim da estação,
soprando emoções quebradas na areia,
como a despedida dos amores de verão.

Termina temporada, termina o verão,
Recolhe-se a rede, o guarda sol, a esteira,
Recolhem-se as sereias e musas do mar,
Fim de viagem, morre a estação derradeira…

Sônia Schmorantz

Amigos Fiéis...


A razão dos cães serem nossos fiéis amigos é porque eles têm o "instinto" de saber nos perdoar sem mágoas,
 pelos nossos momentos de insanidade.
Eles sentem que nós os amamos profundamente.

Márcio Souza