quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Todo cão é fiel....




Tenho um irmão amado que mora em Faxinal do Soturno: Miguel, juiz, pai do Murilo e casado com  
Milena.
É o caçula de casa, o único que se dá bem com toda a família e o mais quieto e sábio, talvez porque foi o último a chegar nas brigas e descobriu que eram insolúveis e não valeria a pena perder tempo
com elas.
Ele cuida de dois cachorros. O mais novo, um salsicha, o Mandi, foi atropelado na frente do Miguel. Escapou de um passeio vigiado na residência e se animou a atravessar a rua de repente.
Diante do estrondo das rodas, do rasgo do freio e do latido esganiçado, Miguel correu para socorrê-lo. Mesmo abatido, mesmo morrendo, o cachorro mexeu o rabo ao ver seu dono.
Destroçado, encolhido na frieza das pedras, fez um esforço colossal de mexer o rabo para festejar as mãos de Miguel em sua cabeça.
Apesar de ferido e sangrando, alheio a sua condição agonizante, mexeu o rabo, esta mão prodigiosa que o cachorro tem além das patas, esta antena do coração, esta risada do corpo.
Mesmo soltando seu último suspiro, mesmo desesperadamente doendo, o cachorro mexeu o rabo ao ver o Miguel próximo.
Mesmo no pior momento de sua vida, ele encontrou um instante de felicidade e ternura, e acenou com o rabo, quis demonstrar para Miguel que o amava.
Mexeu o rabo de agradecimento. Mexeu o rabo de comoção. Mexeu o rabo, como sempre mexeu o rabo, quando Miguel chegava do trabalho e perguntava pelo seu nome pelos corredores. Nada mudaria seu hábito de mexer o rabo. Nada arrancaria dele o gesto puro e repetido dia a dia.
Nem o fim impediu sua declaração. Nem a falta de ar, o medo, a angústia de não estar mais entre nós para sempre.
Ficou mais feliz de ver Miguel do que triste de morrer.
Ele é um exemplo de como não ser tragado pela infelicidade.
O quanto não devemos nos afundar na angústia, seremos maiores do que as fatalidades e os reveses, pois poderemos agradecer o que somos e o que recebemos.
Ainda que nossa vida esteja perdida, temos uma chance de eternizá-la ao nos entregar para a amizade do outro.
Miguel mexeu os olhos em resposta. Sem ter certeza se estava rindo pelo carinho surpreendente de seu cão naquele momento ou chorando pelo acidente trágico.
As lágrimas escorriam, ao mesmo tempo, de contentamento envergonhado e de dor exagerada.
Não conseguia separar os sentimentos.
Isto é a grandeza do humano, a imprevisibilidade do amor, que também mora na alma dos cachorros.

Carpinejar

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Nossa Senhora do Brasil...


Roseana Murray...

Ler um gato é muito diferente do que ler um cachorro.

 O gato é um texto que se esquiva, se esconde entre duas

 auroras, na fronteira entre o mágico e o irreal.

 O gato é sinuoso, seu texto é macio, é poesia, nunca se

deixa apreender por inteiro.

 O gato é escorregadio, vive nas entrelinhas.

Para ler um cachorro não se precisa de óculos especiais
.
 Seu texto é escrito em maiúscula, diz claro e em bom tom o

 que pensa e a que veio.

O cachorro é prosa, o gato é música, é poesia.



sábado, 14 de fevereiro de 2015

Bibiana Benites...



As pessoas conhecem a nossa versão, o nosso lado, as 

nossas queixas, mas não a nossa essência.

 Pouca gente

 sabe como a gente convive por dentro, sente, e é de

 verdade.


Apenas nós levamos na bagagem da vida a nossa melhor 



parte, e o nosso mais bonito lado: o de dentro.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Angel...


As Rosas...


Rosas que desabrochais, 
Como os primeiros amores, 
Aos suaves resplendores 
          Matinais; 

Em vão ostentais, em vão, 
A vossa graça suprema; 
De pouco vale; é o diadema 
          Da ilusão. 

Em vão encheis de aroma o ar da tarde; 
Em vão abris o seio úmido e fresco 
Do sol nascente aos beijos amorosos; 
Em vão ornais a fronte à meiga virgem; 
Em vão, como penhor de puro afeto, 
          Como um elo das almas, 
Passais do seio amante ao seio amante; 
          Lá bate a hora infausta 
Em que é força morrer; as folhas lindas 
Perdem o viço da manhã primeira, 
          As graças e o perfume. 
Rosas que sois então? – Restos perdidos, 
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha 
Brisa do inverno ou mão indiferente. 

          Tal é o vosso destino, 
          Ó filhas da natureza; 
          Em que vos pese à beleza, 
                   Pereceis; 
          Mas, não... Se a mão de um poeta 
          Vos cultiva agora, ó rosas, 
          Mais vivas, mais jubilosas, 
                   Floresceis. 

Machado de Assis, in 'Crisálidas'