quarta-feira, 10 de abril de 2013

Marina Colasanti...

                                                       
 
 
 
Ás seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução


terça-feira, 9 de abril de 2013

Simone e Martinho da Vila...


Gabi...

A tua partida prematura, somada a partida do pai e da Gina fez com que fossemos mais unidos. Hoje és um anjo inesquecível a quem amaremos sempre, não importa quanto tempo transcorra...
A tua partida prematura, somada a partida do pai e da Gina fez com que fossemos mais unidos. Hoje és um anjo inesquecível a quem amaremos sempre, não importa quanto tempo transcorra...
(Dete)
                                                                   

17 anos de Saudade...


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Música que marca momentos meus...


Emmanuel...

 
 
Nenhum sofrimento, na Terra, será talvez comparável ao daquele coração que se debruça sobre outro coração regelado e querido que o ataúde transporta para o grande silêncio.                                                                                             

Ver a névoa da morte estampar-se, inexorável, na fisionomia dos que mais amamos, e cerrar-lhes os olhos no adeus indescritível, é como despedaçar a própria alma e prosseguir vivendo...

Digam aqueles que já estreitaram de encontro ao peito um filhinho transfigurado em anjo da agonia; um esposo que se despede, procurando debalde mover os lábios mudos; uma companheira, cujas mãos consagradas à ternura pendem extintas; um amigo que tomba desfalecente para não mais se erguer, ou um semblante materno acostumado a abençoar, e que nada mais consegue exprimir senão a dor da extrema separação, através da última lágrima!

Falem aqueles que, um dia, se inclinaram, esmagados de solidão, à frente de um túmulo; os que se rojaram em prece nas cinzas que recobrem a derradeira recordação dos entes inesquecíveis; os que caíram, varados de saudade, carregando no seio o esquife dos próprios sonhos; os que tatearam, gemendo, a lousa imóvel, e os que soluçaram de angústia, no adito dos próprios pensamentos, perguntando, em vão, pela presença dos que partiram...

Todavia, quando semelhante provação te bata à porta, reprime o desespero e dilui a corrente da mágoa na fonte viva da oração, porque os chamados mortos são apenas ausentes e as gotas de teu pranto lhes fustigam a alma como chuva de fel.

Também eles pensam e lutam, sentem e choram.

Atravessam a faixa do sepulcro como quem se desvencilha da noite, mas, na madrugada do novo dia, inquietam-se pelos que ficaram... Ouvem-lhes os gritos e as súplicas, na onda mental que rompe a barreira da grande sombra e tremem cada vez que os laços afetivos da retaguarda se rendem à inconformação ou se voltam para o suicídio.

Lamentam-se quanto aos erros praticados e trabalham, com afinco, na regeneração que lhes diz respeito.

Estimulam-te à prática do bem, partilhando-te as dores e as alegria.

Rejubilam-se com as tuas vitórias no mundo interior e consolam-te nas horas amargas para que te não percas no frio do desencanto.

Tranqüiliza, desse modo, os companheiros que demandam o Além, suportando corajosamente a despedida temporária, e honra-lhes a memória, abraçando com nobreza os deveres que te legaram.

Recorda que, em futuro próximo que imaginas, respirarás entre eles, comungando-lhes as necessidades e os problemas, porquanto terminarás também a própria viagem no mar das provas redentoras...

E, vencendo para sempre o terror da morte, não nos será lícito esquecer que Jesus, o nosso Divino Mestre e Herói do Túmulo Vazio, nasceu em noite escura, viveu entre os infortúnios da Terra e expirou na cruz, em tarde pardacenta, sobre um monte empedrado, mas ressuscitou aos cânticos da manhã, no fulgor de um jardim.
 
 

 

Santa Maria na memória....

O crime múltiplo e brutal, em que muitas são as vítimas e vários os autores, nunca gera
responsabilidades, remorsos nem culpas. Os criminosos se escoram uns nos outros, como se esse conluio diluísse o horror que provocaram. Os anos enferrujam a lembrança e ficamos como nas guerras: quanto mais se mata, mais herói se é.
O povo de Santa Maria que se cuide, portanto! Nada de pedir justiça ampla e profunda ou exigir que o crime da madrugada de 27 de janeiro seja punido em todos os âmbitos. Nada de localizar e identificar a rede de responsáveis. Nada de chegar ao fundo da trama que encadeou e alimentou a morte. Nada de ir ao nascedouro (como tentou ir o minucioso inquérito policial) e ter fatos para denunciar quem se diga perfeito ou quem seja prefeito. Já existem quatro pobres-diabos denunciados como únicos responsáveis pelos 241 jovens asfixiados em meio à alegria da noitada e, portanto, a lei está a salvo!
Para que ir além do que já se conhecia _ que a boate era uma ratoeira e os "fandangueiros" eram piromaníacos musicais?
Por que indignar-se e pretender esmiuçar tudo, tintim por tintim? Isto pode ser tachado de baderna de rua, de quem agita antes de usar, como nas velhas loções de beleza. Indago: deve o povo de Santa Maria (ou do Rio Grande inteiro) exigir mais do que os norte-americanos, que até hoje não sabem quem matou o presidente John Kennedy, com duas balas na cabeça há quase 50 anos em Dallas? Lá, acharam "um culpado", logo morto por "um vingador" na frente de jornalistas e cinegrafistas e ninguém foi além dessa fronteira. Caso resolvido!
Até hoje, porém, os EUA se envergonham por terem se contentado com essa simplificação. Camuflados no poder, os assassinos reais nunca foram denunciados.
Restou um único pobre bode expiatório.

Mas Santa Maria não é Dallas. Tudo é diferente. Dallas era a cidade do ódio e engendrou o crime numa conspiração da direita e da máfia. Com o nome da mãe de Cristo, Santa Maria é de paz e trabalho. De núcleo ferroviário, tornou-se centro universitário. Sempre soube reivindicar, porém, e nos anos 1950-60, quando a política era ainda disputa de ideias e projetos, foi nossa cidade mais politizada.
Esta cidade não pariu a matança. Outros foram os parteiros _ gente entrelaçada numa teia ampla, privada e pública, em que cada qual fugia da obrigação, fazendo o desleixo ter vida própria. Era como se donos da boate e banda, fiscais e inspetores públicos, bombeiros, funcionários estaduais e municipais (e até o prefeito) disputassem o campeonato da desídia para coroar o campeão da inoperância e permissividade.
Consumada a tragédia, todos fogem, escondem-se em pretextos, inventam subterfúgios.
O inquérito policial desnudou o absurdo que permitiu o funcionamento da boate e foi como se os 241 corpos inertes iluminassem o futuro e a morte virasse advertência para garantir a vida. Em todo o país "apertaram" a fiscalização.

Ao oferecer a denúncia em juízo, o Ministério Público suavizou, agora, as conclusões da investigação policial. Quebrou-se a norma de o Ministério Público ser mais rígido que a polícia. Os promotores afirmam ter feito "uma análise técnica" das 13 mil folhas do inquérito (que indiciou 16 e responsabilizou 12 pessoas, entre elas o prefeito) e os denunciados, agora, de fato são quatro: dois da boate e dois da banda. Quatro bombeiros, processados por fraudes processuais, talvez nem cheguem a julgamento.
A "análise técnica" acabou por denunciar só aqueles que eram culpados visíveis desde o momento da tragédia, e o inquérito fez-se ocioso. Ou inútil?
Há quem pergunte quem denunciará, agora, os delegados Arigony, Meinerz e equipe por terem gasto tanto papel, quando tudo já era evidente até sem investigar?

Fávio Tavares  Jornalista e escritor