sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ana Jácomo...




Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.
 De sol quando acorda.
 De flor quando ri.
 Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda.
 Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete.
 Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher.
 O tempo é outro.
 E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende a ver.'

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Cruel Pedagogia...



Do alto de seus vinte anos, os jovens contemplam a vida como quem, do alto de uma montanha, observa, extasiado, o mundo ao seu redor. Horizontes amplos, infinitas trilhas e 360 graus de possibilidades. Nessa idade, eu me lembro muito bem, a vida é eterna e a esperança infinita. Só os avós morrem quando se tem vinte anos. O velório de um jovem é inconcebível ruptura com a ordem natural. Contudo, a morte espreita a juventude com olhos cobiçosos. Enquanto os idosos morrem porque chegou a hora, porque dar adeus à vida terrena é próprio da velhice, os jovens morrem de infinitas maneiras, revelando inesperada vulnerabilidade.

Idosos morrem porque não podem alterar o curso da vitalidade que se extingue. Jovens, porém, morrem desnecessária e superfluamente, por motivos que poderiam ser evitados. Essa é a tragédia das tragédias cotidianas. Ir-se assim, sem que nem porquê? Jovens morrem nas ruas, nas estradas, nas brigas entre gangues, na lenta e dolorosa morte das drogas, nas madrugadas onde a violência espreita, nas infames brigas por motivos fúteis. Morrem nas aventuras e travessuras, na terra, na água e no ar. Por isso pais e mães carregam no peito uma incompreendida e permanente aflição. A respiração para quando o telefone toca e para quando o telefone não toca. Paranóicos, nós? Não, não. Simplesmente pais cuidadosos de filhos incautos, que creem haver bebido a imortalidade no cálice da juventude.

As grandes catástrofes carregam em seu script uma pedagogia brutal. Há nelas uma lição sobre o que não fazer. Sua dissonante partitura se faz com notas que pedem atenção e reflexão. Desafortunadamente, numa espécie de autodefesa, cerramos os olhos e os ouvidos. E pouco aprendemos com as lições que nos vêm dos sinistros e dos escombros.

Por isso escrevo com a esperança de que a crudelíssima pedagogia dos fatos do dia 27 mostrem aos nossos jovens que nós, os pais, não somos coroas paranóicos a vislumbrar perigo ali onde tudo indica morar a felicidade e a alegria. Por isso escrevo confiando em que os jovens não pressuponham que as autoridades fazem sempre, em toda a parte, tudo que lhes compete para garantir a sua segurança. Não! Muitas vezes é o contrário. Por isso escrevo desejando que os jovens, diante de tão sofrida experiência, valorizem o dom maravilhoso da vida como uma dádiva frágil a exigir prudência e atenção. As alegrias dos filhos serão maiores e as aflições dos pais serão menores se, doravante, filhos e pais forem severos fiscais da própria segurança onde quer que estejam.


(Percival Puggina)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Dia da Saudade...



No dia 30 de janeiro é comemorado o dia da saudade, essa palavra existe apenas na língua portuguesa e galega e serve para definir o sentimento de falta de alguém ou de algum lugar.

De origem latina, saudade é uma transformação da palavra solidão, que na língua escreve-se “solitatem”. Com o passar dos anos, assim como outras palavras se transformam de acordo com as variações da pronúncia, solitatem passou a ser solidade, depois soldade e, finalmente, saudade.
                                                                    
Podemos considerar que no dia da saudade as pessoas se dedicam às lembranças de seus entes queridos que estão ausentes, de fatos que viveram ou de lugares e objetos que marcaram suas vidas. Isso faz com que a palavra saudade se torne melancólica, trazendo certo sofrimento.

Saudade é também definida como “a sensação de incompletude, ligada à privação de pessoas, lugares, experiências, prazeres já vividos e vistos, que ainda são um bem desejável”, segundo o dicionário Veja Larousse.

Em outras línguas não existe uma palavra capaz de traduzir o significado amplo de saudade, mas algumas delas trazem conceitos próximos, mas não tão nobres. Em inglês, saudade é “I miss you” que quer dizer sinto sua falta; em Francês “souvenir”, que significa lembrança; em italiano “ricordo affetuoso”, recordação afetuosa; em espanhol “recuerdo ou te extraño mucho, que significam lembrança e sinto falta, respectivamente.

Ao longo da história podemos perceber a saudade nas músicas e nos poemas, desde longos anos. Charlie Chaplin diz: “Sorri quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos vazios”; Luis Fernando Veríssimo determina que “não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar”; Vinícius de Moraes e Tom Jobim cantaram a saudade dizendo: “Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai”.

Os sertanejos também retratam muito a saudade, pois deixam o campo para trabalhar na cidade. Chitãozinho e Xororó falaram da saudade retratando que “por nossa senhora, meu sertão querido, vivo arrependido por ter deixado. Esta nova vida aqui na cidade, de tanta saudade, eu tenho chorado”.

E o rock não podia deixar de se manifestar sobre o tão nobre sentimento. Raul Seixas registrou sua expressão na letra que diz “hoje é feriado, é o dia da saudade, hoje não tem aula pra garotada, velhas de varizes na calçada, só na saudade”.
Por Jussara de Barros

O marinheiro e o camponês



Durante mais de 30 anos, meu pai trabalhou em uma grande loja de departamentos chamada Hermes Macedo. Se aquele prédio na esquina da Alberto Bins com a Coronel Vicente fosse um reino – e para mim era –, meu pai seria o soberano, e eu sua única princesa.

Loja de departamentos era aquele negócio com a ambição cosmogônica de contemplar todas as necessidades de consumo que um crediário é capaz de abarcar. Na HM, compravam-se calcinhas e geladeiras, bicicletas e relógios, pneus e anáguas, lanchas e todos os seus acessórios, sofás e passadores de cabelo. Como a família real morava em apartamento, a Hermes Macedo era meu parque, minha Disney, meu reino das águas claras.

Ali, eu podia pular em todos os sofás, testar todos os brinquedos e, mais radical de todas as aventuras, subir correndo a escada rolante no sentido contrário. Na Hermes Macedo, iniciei e encerrei minha carreira de modelo infantil cometendo um ousado strip-tease na passarela, sentei no colo do Papai Noel pela primeira e última vez – e chorei, acalentei todas as bonecas, pedalei todas as bicicletas sem nunca sair do lugar.

Tudo porque meu pai trabalhou quase a vida inteira em um único emprego – e para mim, na infância, era como se ele tivesse nascido ali e fosse morrer ali também. (Anos mais tarde, ele acabou morrendo no trabalho, mas não na HM, que já havia falido, mas no escritório onde se empregou para completar a modesta aposentadoria que se pagava aos soberanos das lojas de departamentos naquela época.)

Em um texto clássico sobre a arte de contar histórias, Walter Benjamin divide a habilidade de narrar em dois grandes arquétipos: o do marinheiro e o do camponês. O marinheiro viaja, enfrenta perigos, estende horizontes com o relato de suas aventuras. O camponês é o depositário da tradição, das narrativas que tornam um lugar único em relação a todos os outros. O marinheiro é espaço, o camponês é tempo.



Meu pai foi o camponês urbano que nunca saiu do mesmo lugar. Se tivesse sido um piloto da Varig, um capitão da Guarda Costeira, um mascate de tecidos, é provável que tivesse me ocorrido perguntar mais sobre as coisas que tinha visto, os personagens exóticos, as paisagens distantes.

Hoje me arrependo de não ter usado o tempo que tivemos juntos para perguntar mais sobre a cidade de onde ele nunca saiu, sobre as esquinas que conhecia desde sempre, sobre as pequenas e grandes intrigas daquele reino aparentemente indestrutível que se desfez antes mesmo de eu chegar à vida adulta.

Dizem que os garotos de hoje têm pavor da ideia de trabalhar a vida inteira no mesmo lugar e que a carreira estável não tem o apelo que tinha nos tempos do meu pai. E é verdade. Mas o fato é que a jornada aventurosa do marinheiro sempre foi mais sedutora do que a estabilidade, mesmo quando ser camponês parecia mais sensato.

Eu mesma, se tivessem me perguntado, talvez respondesse que preferiria visitar todas as capitais da Ásia a morar sempre na mesma cidade, fazendo a mesma coisa todos os dias e vendo as semanas virarem meses, e os meses se agruparem em anos.

Não foi bem o que aconteceu. Esta semana, comemorei inacreditáveis 25 anos lavrando metaforicamente o mesmo pedaço de terra, na mesma esquina da Erico com a Ipiranga onde comecei a trabalhar antes mesmo de decidir ser jornalista. Sou, como meu pai, uma camponesa.

O que marinheiros e camponeses acabam percebendo depois de algum tempo é que há sempre algo novo a se descobrir na paisagem de todos os dias, assim como algo que se repete naqueles lugares onde nunca estivemos antes.

A única aventura realmente inesgotável talvez seja aquela de poder fazer o que se gosta. Assim na terra como no mar. 

 (Cláudia Laitano)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As boas coisas da vida...

                                                             




Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, fez esta pequena lista:

- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.

- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos servente de pedreiro.

- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.

- Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.

- Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne – a mulher que não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.

- Viajar, partir…

- Voltar.

- Quando se vive na Europa, voltar para Paris, quando se vive no Brasil, voltar para o Rio

- Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte – o assim chamado descanso eterno.

Em defesa das flores...

                                                                         

“Quero lhe fazer um pedido”, disse a voz afeminado no outro lado da linha. Era uma voz agradável,musical,firme – de uma mulher ainda jovem. “Sim?” – eu perguntei de forma lacônico-psicanalítica, não sem uma pitada de medo. Muitos pedidos estranhos me são feitos. “Eu queria que o senhor escrevesse uma crônica em defesa das flores …” – Sorri feliz. As flores fazem parte da minha felicidade. Do outro lado da linha estava uma pessoa que amava as flores como eu. Na minha imaginação apareceram campos floridos: tulipas,girassóis, margaridas, trevos (sim, essa praga!).
Versinho da Emily Dickinson:
Para se fazer uma campina
É preciso um trevo!
Uma abelha, um trevo e fantasia …
Mas faltando abelhas,
Basta a fantasia …
Sim, com trevos se fazem campinas floridas! -qualquer tipo de flor vale a pena …Aí ela se explicou: “Tenho dó das flores nas coroas funerárias. Eu queria que algo fosse feito paraprotegê-las, para impedir que aquele horror se fizesse a elas. “Minha imaginação passou das flores livres dos campos para as flores torturadas dos velórios.Concordei com a Carolina (esse era o nome da mulher -jovem de oitenta anos). Não conheço nada de maior mau gosto que os velórios. Ali tudo é feio. Tudo é grosseiro. As urnas funerárias – falta a elas asimplicidade de linhas. Parecem-se com essas mulheres que se cobrem de bijuterias – pensando que assim ficam bonitas. Os suportes metálicos, então, são horrendos. O saguão do velório do Cemitério da Saudade, até a Última vez que fui lá, estava cheio de frases graves e amedrontadoras do tipo: “Eterno e silencioso é o descanso dos mortos.” Que coisa horrível! Pior que as piores visões do inferno! No inferno pelo menos há movimento. Mas no tal descanso eterno tudo é silencioso. A música e os risos estão proibidos. Eu ficaria louco na hora, teria impulsos suicidas. Mas a desgraça é que, estando eu já morto, me seria impossível dar cabo de minha vida.Aos múltiplos horrores estéticos junta-se o horror das coroas de flores. Comparem a beleza de uma flor, uma única flor, um trevo azul de simetria pentagonal,com o horror de uma coroa. Olhando para a florinha do trevo meus pensamentos ficam leves, flutuam. Olhando para uma coroa meus pensamentos ficam pesados e feios. Numa coroa todas as flores deixam de ser flores.Elas não mais dizem o que diziam. Não mais são o que eram. Amarradas, contra a vontade, num anel artificial,do qual pendem fitas roxas com palavras douradas.São, as coroas, de uma vulgaridade espantosa. Ali as não-flores só servem de enchimento para os nomes. Eu tenho uma teoria para explicar o horror estético dos velórios. Quem me instruiu foi a Adélia Prado. Diz ela: No cemitério é bom de passear. A vida perde a estridência, o mau gosto ampara-nos das dilacerações.E eu que nunca havia pensado nisso, na função terapêutica do mau gosto! Nem Freud pensou. A gente vai lá, com a alma doída, coração dilacerado de saudade, e o mau gosto nos dá um soco. A saudade foge, horrorizada, por precisar da beleza para existir – eo que fica no seu lugar é o espanto. Pronto! Estamos curados! O mau gosto exorcizou a dilaceração. Foi precisamente isto que aconteceu com uma amiga minha. Foi ao velório de uma pessoa querida para chorar. Aí o oficiante (se foi padre ou pastor não vou dizer) começou a falar. E as coisas que ele disse foram de tão horrível mau gosto que sua alma foi se enchendo de raiva por ele, e a dor pela amiga morta se foi.Os velórios são ofensas estéticas que se fazem aos mortos. Velórios deveriam ser belos. Camus, no seu estudo sobre o suicídio, diz que o suicida prepara o seu suicídio como uma obra de arte. Não sei se isso é verdade. Mas sei que cada um deveria preparar o seu velório como uma obra de arte.“Beber o morto” – essa é a expressão que se usa em algumas regiões do Brasil para designar o ato de beber um gole de pinga em homenagem ao falecido.Costume certamente inspirado na eucaristia, que é o ritual qual se serve a beleza que o morto gostaria de servir.Os vivos, amigos, têm de garantir que a sua vontade seja realizada.Um conhecido, nos Estados Unidos, doou o seu corpo para a escola de medicina. Então, não haveria nem velório nem enterro. Ele – malandro – deixou uma soma de dinheiro para um jantar oferecido aos seusamigos. Eles se reuniram, comeram, beberam,conversaram, riram e choraram pela vida do amigo querido. Outro, também nos Estados Unidos, morreu no outono. No outono as folhas das árvores ficam vermelhas e amarelas, antes de caírem das árvores,mortas. O outono anuncia o velório do ano com uma beleza que não pode ser descrita. Pois ele pediu queseu ataúde fosse simples, rústico, tábuas nados as de pinheiro, que a sua esposa cobriu com um lençol branco em que folhas de outono, vermelhas e amarelas, haviam sido costuradas.Um velório deveria ter a beleza do outono, toda a beleza do último adeus. Os oficiantes teriam de ser os melhores amigos. Que sabem os profissionais dareligião da beleza que morava naquele corpo? Quanto a mim, não desejo ser enterrado em ataúde. Sofro de claustrofobia. A idéia de ficar trancado numa caixa me causa arrepios. Acho a cremação um lindo ritual. Neruda declarou que os poetas são feitos de fogo e fumaça. As cinzas, soltas ao vento, lançadas sobre o mar, colocadas ao pé de uma árvore, são símbolos da leveza, da liberdade e da vida. Teria de haver música,do canto gregoriano ao Milton. E poesia. Nada de poesia fúnebre. Cecília Meireles para dar tristeza. Fernando Pessoa para dar sabedoria. Vinicius deMoraes para falar de amor. Adélia Prado para fazer rir. E Walt Whitman para dar alegria. E comida. De aperitivo, Jack Daniel’s. Ainda vou contar a estória do Jack – estória de amizade. Comida de Minas. De entrada, sopa de fubá com alho, minha especialidade. Depois, frango com quiabo, angu e pimenta, a mais não poder. E, de sobremesa, minhas frutas favoritas, se sua estação for: caqui, manga, jabuticaba, banana-prata bem madura.Coroas de flores mortas, nem pensar! Pedirei aos que me amam que semeiem flores em algum lugar – um vaso, um canteiro, a beira de um caminho. Se não for possível, que distribuam pacotinhos de sementes entre as crianças de alguma escola, entre os velhos de algum asilo. E, se for possível, uma árvore. Ah! Que linda prova de amor é plantar uma árvore para que alguém amado, ausente, possa se assentar à sua sombra.Se você for primeiro do que eu, Carolina, prometo:não mandarei coroa. Mas plantarei uma flor.



                                                  (Rubem Alves)

Mike Rowland...